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Viver no Canada (Parte 1)

30/11/2010

 

Esse é um assunto do qual posso falar com mais segurança. Passei só dois anos no Canada, o que pode parecer pouco. Acontece que minha situação mudou diversas vezes nesse periodo: fui estudante, fui desempregada, dei aula de portugues, trabalhei como voluntaria, trabalhei normalmente, solteira, casada, tive varios amigos de diversas partes do mundo nas condiçoes mais extremas que vcs podem imaginar, 3 tipos de vistos diferentes, e vi muita coisa de cair o queixo.

Falar do Canada é complexo. O pais é extremamente grande e cada provincia funciona de um jeito. A parte francesa então é um caso a parte totalmente diferente. Minha experiencia se resume basicamente a Toronto e GTA (Great Toronto Area).

Sempre tive uma ideia do Canada de pais limpinho e fofinho onde tudo funcionava. E culturamente eu imaginava o obvio: uma pais cheio de canadenses. Ai começou minha percepção errada. Em Toronto os canadenses (de pai e mãe canadenses) são minoria. O que tambem acontece em Vancouver e outras partes. Muitos anos atras, quando ainda fui fazer um curso de ingles em Vancouver ja tinha descoberto que algo como 48% da população é de origem asiatica, 30%  de outros lugares, e canadense então se sente perdido na sua propria terra. Ja conversei com varios canadenses que tinham receio dos filhos se sentirem excluidos na escola, uma vez que quase todos os colegas de classe eram de uma certa etnia e se uniam por isso.

Tenho opinião dividida sobre essa diversidade. Ao mesmo tempo que é o ponto mais legal do pais, é tambem onde mora o grande problema do Canada.

O Canada tem uma população bem pequena. Faltam pessoas e trabalhadores pra morar la no norte no meio do frio constante de graus negativos. O pais então adora receber refugiados pobres e imigrantes qualificados que “prometem” povoar esses lugares pra onde ninguem quer ir. Esses recem-chegados acabam não aguentando a vida dura no frio e indo pros grandes centros urbanos como Toronto.

Os refugiados vao pra ficar, procedentes de paises pauperrimos, com guerra e violencia. Eles recebem mesada do governo pra ajudar em moradia, comida, etc. Alem disso, recebem ajuda pra arrumar emprego e acharem um rumo na vida. Ja os imigrantes qualificados, vao com  a ilusao de que vao achar emprego e uma vida melhor. Esperam 2, 3, 4, ate 5 anos depois de darem entrada no processo de imigração e o Canada chama-los pra finalmente imigrar. Pra chegar la e sofrerem com a falta de emprego, dificuldade de reconhecimento de diploma, e salarios baixos. (hoje então que comparo com a Australia, os salarios no Canada sao uma merreca).

Em Toronto faltam empregos. Da minha turma de 30 da pos-graduacao, só 4 conseguiram emprego depois de formar em Abril de 2009. A crise afetou bastante o dia-a-dia dos canadenses. Eu fui uma do grupo de sortudos que conseguiram emprego, mas ganhava pouquissimo em um sindicato, fazendo algo que não tinha nada a ver com minha area. Ganhava exatamente o dinheiro do aluguel, contado. O Charlie pagava as demais despesas.  

O que mais me irritava é que eu tinha curso superior, 2 pós-graduacoes, falo ingles e frances e mesmo assim consegui um emprego fuleiro. Meu visto de trabalho (que demorei muito pra conseguir) terminaria em Julho de 2010, e seria praticamente IMPOSSIVEL renova-lo. Como assim o Canada nao me queria se eu era tao qualificada?????? Enquanto isso a cada dia me deparava com centenas de novos refugiados que foram recebidos de braços abertos pelo governo, perambulando nas ruas sem emprego, alguns se juntando ao crime enquando ganhavam quase 1,000 dolares por mes de ajuda do governo… Enquanto NENHUM colega canadense meu da pós conseguiu emprego depois de formar..e eu qualificada estava com dias contados…

O Canada me decepcionou fortemente. Um pais que vive de fachada, mostrando um lugar lindo friozinho pra viver….mas cheio de problema sociais irreparaveis. Hoje vejo a Australia e como as coisas funcionam aqui. Aqui sim é primeiro mundo com qualidade de vida. O Canada não passa de um refugio pra grupos seletos de imigrantes, e não consegue nem atender as necessidades dos proprios canadenses. Conto nos dedos quantos canadenses eu vi com menos de 35 anos que conseguiram adquirir casa propria. Raros.

Não estou cuspindo no prato que comi. A vivencia que tive não tem preço. Alem disso, é um bom lugar pra se viver pra quem vai com a certeza de emprego, ou quem vai temporariamente pra estudar. Recomendo 100%. Mas não é um lugar excelente. O frio castiga, os salarios não são altos e o sistema de saude não é bom.

(PARTE 2 a vir)

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8 comments

  1. Acho ótimo você colocar aqui seu ponto de vista, pois realmente a visão que todos tem do Canadá é do país de primeiro mundo perfeito, e eu tenho tido notícias de muitas pessoas, amigos de irmãos, de amigas, e familiares que estão deixando tudo aqui (emprego, casa, carro e até família) para ir tentar a sorte no Canadá, e acabam indo ir trabalhar em restaurante (mesmo com curso de pós graduação, mestrado… ). Depois da propaganda que foi feita aqui no Brasil, de que o Canadá está precisando de pessoas qualificadas para trabalhar lá, e que, teoricamente, ou ilusoriamente, está de portas abertas para nos receber, muitos estão indo na cara e na coragem. Esta é uma ótima oportunidade das pessoas se informarem e avaliarem se realmente vale a pena. Na maioria das vezes não vale. E as coisas aqui no Brasil estão melhorando, e muito.


  2. Eu também tinha outra imagem do Canadá, nossa, você me fez ter uma visão totalmente diferente, é claro que nenhum país é perfeito, porém não imaginava que o Canadá era desse jeito. Até fico mais tranquila de ter escolhido a Austrália ao invés do Canadá pra fazer intercâmbio, mesmo que seja para passar alguns meses, quero viver esse pouco tempo em um lugar bom e que não me decepcione tanto. Parabéns pelo post, adorei e boa sorte na decoração da sua casa!!! Beijos


  3. Eu morei dez anos nessa merreca de Toronto. Formado, com doutorado e pós doutorado eu entrei nessa cidade para pagar todos os meus pecados. Cheguei a fazer três cursos (pos secondary), foram três cursos superior dentro da minha área e era taxado de super qualificado. Foram 10 anos sofrendo, frequentador de banco de comidas, cliente da house connection. Até que um dia vi na internet que o governo brasileiro estava fazendo concursos para professores e então resolvi voltar. Em 5 anos de Brasil comprei casa, tive filhos, comprei carro e chacará. Dez anos no Canadá so acumulei dívidas de emprestimos educativos e passei muita vergonha.

    Canadá é uma grande ilusão e quando vejo as pessoas indo para lá, largando emprego, vendendo suas casas e demais imóveis eu fico apavorado. Ninguém diz para eles que para conseguir e segurar emprego naquele pais, eles tem que dividir a esposa com o chefe. Pelo menos você falou parte da verdade e parabéns por isso. Feliz Ano Novo.


  4. Muito bom ler seu depoimento.
    Eu estou aqui no Canadá, em Québec, há quase 2 anos e só enfrento dificuldades. Vim atraída pela falsa promessa e pela propaganda enganosa que fazem do país no exterior.
    Passei por várias fases também: estudante, subempregada de tempo parcial e braçal, desempregada agora e estou quase ficando deprimida. Dividi apto, morei sozinha, casei (meu marido ainda nao pode viver aqui), só pode vir de tempos em tempos
    Sem diploma quebequense os imigrantes sao vistos como pessoas de quinta categoria. E com diplomas canadenses passam para terceira.
    O francês “joualizado” do quebequense é complicado de entender e escrevem muito errado, de qualquer jeito. Mas o imigrante tem que saber muito bem! E mais inglês e espanhol para ganhar quase o mínimo por hora (mín. 9,50).
    O sistema de saúde é um caos. Tem até casos de pessoas que foram atendidas em uma UTI improvisada numa cafeteria! Busquem na Internet, é sério.
    Muitas desvantagens que nao compensam o frio extremo. E numa cidade que nao tem metrô, pior ainda. Sem falar do sentimento de superioridade quebequense e das idéias separatistas.
    O verao muito curo e tem dias tórridos.
    Tem preconceito sim, só que é velado, mascarado na hipocrisia social e em justificativas polidas e às vezes descabidas, mas polidas.
    Estou querendo mudar de país assim que for possível.
    A segurança é a única coisa boa e só.


    • Joana,
      Entendo quase perfeitamente o que vc esta falando. Não compreendo como o Canada insiste em fazer propaganda pra atrair imigrantes qualificados (como se o diploma conseguido fora fosse importante). E ultimamente a propaganda pra imigrar pra Quebec é a maior de todas. Muita gente que conheci usou Quebec como uma “ponte” pra imigrar pra outras areas do Canada.
      Depois que passou o periodo inicial, vc pode tentar ir pra Saskatchewan ou alguma area que tenha emrpegos. No passado vc tinha que esperar 2 anos, nao sei agora. Sei que Saskatchewan e Alberta e tal são uma geladeira, mas pelo menos ouço falar que é melhor pra fazer carreira. To falando de forma generica. Não conheço sua situacao especifica, mas funcionou pra outras pessoas.
      Muita força ai e boa sorte!


  5. A imigração para o Canadá é antes de mais nada uma ilusão. Existe aqui uma indústria da imigração cujo objetivo é trazer 300 mil imigrantes por ano para um país onde não há emprego nem para 20 mil. A ideia parece ser criar uma vasta mão de obra subempregada ou desempregada de forma a deprimir os salários e proporcionar às corporações e empresas gente desesperada disposta a trabalhar por salário mínimo sob quaisquer condições.

    A maioria dos imigrantes – com doutorado, mestrado ou bacharelado – está fritando hamburguer, dirigindo táxis, trabalhando de balconista e fazendo outros trabalhos do gênero. Esses trabalhos são em quase sua totalidade “part time”, o que desobriga o patrão de conceder férias e outros benefícios. Os horários via de regra não são fixos. Mudam a todo momento, de forma que o relógio biológico do trabalhador vai pro beleléu. Há quem chame isso de “o Escravagismo do Século 21″.

    O sistema de saúde é uma porcaria. Bem, a não ser que no Brasil você estivesse no INPS/SUS, que é ainda pior. Mas para quem tinha um planozinho de saúde aí no Brasil, o sistema médico daqui é uma piada. Os hospitais são até bonitinhos e limpinhos. Mas nâo há opção por exemplo quanto a escolha de médicos. Considere-se um sortudo se conseguir um “médico de família”, em geral uma negação. E para ver especialista, esqueça. Antes você precisará da solicitação do médico de família, que é quase certo que negará, porque a demanda por serviços é muito maior do que a oferta de médicos. Daí os médicos de família “seguram” o paciente. Nem pense, por exemplo em desenvolver um problema crÕnico de saúde no Canadá. Se tiver uma depressão – algo muito comum entre os imigrantes, devido ao subemprego e desemprego – aconselho a entrar no avião e marcar uma consulta com um profissional aí no Brasil. Psiquiatra aqui só pra quem está a beira do suicídio.
    A situação de segurança é a única grande vantagem, mas sem emprego decente não há segurança que dê conta.
    E por falar em emprego, não há meritocracia. Esqueça concurso de conhecimentos. Tudo começa com o envio do resume (currículo), onde o imigrante já toma uma cipoada ao ter o nome estrangeiro e a instituição de ensino identificados. Em outras palavras, tal currículo vai para o triturador. E ninguém precisa te explicar nada! Observem que até o acesso às carreiras públicas se dá assim. Subjetividade total baseada no que eles chamam aqui de “networking” e que nos bons e velhos tempos aí no Brasil costumava-se chamar de corrupção mesmo.
    Há é claro algumas histórias de sucesso. Estas histórias são divulgadas pelos propagandistas pagos pelo governo e indústria de imigração canadense. O Hector Villar, por exemplo, da Rádio Canadá, é mestre em apresentar essas “histórias bonitas”. Sob essa ótica tudo é maravilhoso. Cuidado pessoal. Estou aqui há muito tempo e posso garantir que 90% pelo menos dos imigrantes está comendo o pão que o capeta amassou. Muitos aguardam o “período de penitência” de mais ou menos quatro anos para tirar a cidadania e rachar fora. Outros não aguentam esperar e picam a mula muito antes. Eu próprio estou contando dias para cair fora desse inferno de gelo.
    Aconselho aqueles que desejam vir para cá a visitarem antes o país e conversarem com a maior quantidade possível de imigrantes para verem o que está de fato ocorrendo aqui. Se você é milionário, não depende de emprego, venha e curta as paisagens bonitas e a pouca violência. Talvez você até seja entrevistado pelo Hector Villar da Rádio Canadá. Mas se o seu negócio é conseguir um trabalho digno na sua profissão, as chances não são boas. Pense duas, três, mil vezes antes de largar o seu emprego no Brasil e cair nessa fria (literalmente).


  6. Nada e perfeito, mas e melhor viver no irak que no brsil onde mais de 30.000 pessas sao assacinadas por ano, corrupcao, roubo, violencia, escolas sao um lixo, saude, e a sguranca? Ai e demais falar que emelhor viver no brasil que o canada. Ate o tenis que se usa no Brasil vc tem que ter cuidado, pretendo nao voltar mais ao meu lindo Brasil so a passeio.


  7. Gostei muito da maneira como você colocou sobre a vida no Canadá o que eu generalizaria para todo o exterior. Não há lugar perfeito, há sim lugar em que especifica pessoa se sente bem, e isso pode ser numa favela, na floresta amazônica ou mesmo em um país desenvolvido, sou brasileiro, moro no Brasil, e sou muito feliz vivendo aqui, mesmo pertencendo a classe C do pais, sei que não tenho acesso a várias bens de consumo que outros em países desenvolvido tem, mas tenho muito mais do que muitos que vivem nesses países não tem, tenho vários amigos estrangeiros (Europa) que vivem por aqui e que gostam muito e olha que vivo no interior do Brasil. Sei que o Brasil tem um milhão de problemas, especialmente sociais que como consequência nós trás outros vários, mas nem por isso a vida se torna infeliz, só para os que querem isso, e para tais é melhor mesmo que procurem outro lugar para viver.



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